vida adulta 5 minutos

Talvez eu não tivesse perdido a vontade de jogar

Um videogame portátil me fez perceber que talvez o problema não estivesse nos jogos, mas na tentativa de descansar no mesmo lugar em que aprendi a trabalhar.

Um vetor rosa leva o mesmo mundo de jogo de um notebook em um escritório escuro para um videogame portátil iluminado sobre o sofá.

Durante anos, Pokémon SoulSilver esteve ao meu alcance.

O jogo já existia no meu computador. Tecnicamente, eu poderia ter começado a jogar a qualquer momento. Bastava abrir, sentar na cadeira e entrar novamente naquele mundo.

Mas eu não fazia isso.

Não havia culpa, inquietação ou uma grande dificuldade para começar. Também não era exatamente falta de tempo. Eu simplesmente olhava para o computador e não sentia vontade de jogar aquele tipo de jogo.

Então comprei um Nintendo Switch.

Depois das configurações e dos primeiros testes, comecei a jogar Pokémon SoulSilver no portátil. Era um jogo antigo, que continuava disponível para mim havia muito tempo. A diferença parecia pequena: agora eu poderia jogá-lo no sofá ou na cama, com a tela e os controles nas mãos.

Na prática, a experiência mudou completamente.

De repente, eu queria continuar a história. Queria enfrentar o próximo desafio, explorar aquele mundo e descobrir o que vinha depois. Mesmo quando o jogo apresentava alguma dificuldade, aquilo não parecia um peso. Era apenas parte de algo que eu havia escolhido fazer porque estava gostando.

O jogo era praticamente o mesmo. Eu também era a mesma pessoa. Então por que mudar de aparelho e de lugar havia feito tanta diferença?

Foi quando percebi que talvez eu estivesse tentando descansar no mesmo lugar em que aprendi a trabalhar.

O escritório não deixa de ser escritório

Meu notebook fica no escritório. É onde trabalho, estudo, desenvolvo projetos e resolvo grande parte das coisas do meu dia.

Também é um ambiente de produção e, inevitavelmente, de algum estresse. Há burocracias, problemas para resolver e pessoas me chamando. Nem todas as tarefas são agradáveis, por mais que eu goste do meu trabalho e dos projetos que desenvolvo.

Passo muitas horas nesse espaço. Meu corpo reconhece aquela cadeira, aquela mesa e aquela tela como parte de uma rotina em que preciso pensar, decidir e produzir.

Quando o expediente terminava e eu abria um jogo no mesmo computador, o ambiente não se transformava só porque a imagem na tela havia mudado. Eu continuava sentado no lugar em que tinha trabalhado durante o dia inteiro.

Para mim, trocar de programa não estava sendo suficiente para trocar de estado.

O jogo podia estar aberto, mas o espaço ainda carregava as lembranças do trabalho. Era como se o lazer fosse apenas mais uma atividade colocada no fim da mesma sequência de horas diante do computador.

Isso não significa que eu seja incapaz de jogar no escritório.

Pouco mais de um mês antes de comprar o Switch, envolvi-me bastante com Manor Lords. Passei um bom tempo construindo e administrando minha aldeia, acompanhando sua evolução e lidando com os acontecimentos do jogo.

Manor Lords é um jogo de estratégia e funciona especialmente bem com mouse e teclado. Ele não possui a mesma estrutura de uma aventura mais linear, na qual avanço por uma história e acompanho uma sequência de acontecimentos. Sua experiência está muito ligada a planejar, administrar e reagir.

Talvez por sua natureza, ele tenha se encaixado melhor no computador e até no tipo de atenção que aquele ambiente favorece. Ainda estou redescobrindo meus gostos e entendendo quais jogos funcionam para mim em cada contexto.

Essa exceção tornou a percepção mais interessante. O problema não era simplesmente o computador nem uma suposta perda definitiva do interesse por games. Diferentes jogos estavam me pedindo diferentes maneiras de estar presente.

Um aparelho que começa no lazer

O Switch não ocupa o mesmo lugar simbólico do notebook na minha rotina.

Quando pego o portátil, não encontro arquivos do trabalho, ferramentas de produção ou janelas que ficaram abertas durante o expediente. Ele não é o aparelho que utilizo para atender clientes ou resolver problemas da empresa. Sua função naquele momento é muito clara: lazer.

Isso diminui a distância entre sentir vontade e começar a jogar.

O sistema já está pronto. Com poucos comandos, volto exatamente ao ponto em que parei. Não preciso preparar uma sessão, reorganizar a mesa nem decidir que passarei várias horas jogando. Posso avançar por alguns minutos e parar. Se estiver envolvido, continuo.

Também posso escolher o lugar e a posição que combinam com aquele momento. Posso jogar no sofá, na cama ou em outro canto da casa. A portabilidade não significa apenas poder levar o videogame para qualquer lugar. Significa não precisar levar todo momento de lazer para o escritório.

Ter o jogo nas mãos também mudou minha sensação de envolvimento. A tela está próxima, os controles fazem parte do mesmo objeto e há menos elementos ao redor disputando minha atenção.

Meu celular continua por perto, e mensagens ainda podem chegar. Mas, durante o horário de almoço ou depois do expediente, as interrupções costumam ser menores. Acima de tudo, quando olho para o Switch, não encontro no próprio aparelho os sinais das coisas que ainda poderia estar produzindo.

Ele me convida a fazer uma coisa de cada vez.

Quando a vontade aparece sem ser chamada

Nos primeiros dias, é natural que a novidade aumente a empolgação. Eu sabia que parte daquela vontade poderia vir simplesmente do entusiasmo de ter comprado um aparelho novo.

Depois de quase uma semana, porém, comecei a perceber a intensidade se estabilizando sem que a vontade desaparecesse.

Às vezes, sento no sofá e poderia ligar a televisão ou assistir a algum conteúdo. Então olho para o Switch e penso que quero continuar aquela história. Em outros momentos, lembro de um desafio que ficou pela metade e sinto vontade de tentar novamente.

Não preciso me convencer. Não preciso incluir o jogo em uma rotina de produtividade nem estabelecer uma meta de horas para justificar a compra. A vontade simplesmente aparece.

Isso tem sido especialmente significativo porque estou atravessando um período em que tento prestar mais atenção ao que sinto.

Durante muito tempo, fiz muitas coisas porque entendia racionalmente que eram as decisões corretas para alcançar determinados resultados. Agora estou aprendendo a reconhecer também aquelas atividades que despertam prazer sem precisar oferecer uma conquista visível para os outros.

Jogar no sofá é uma experiência simples. Ainda assim, ela me devolveu uma sensação da qual eu estava sentindo falta: fazer alguma coisa porque gosto de estar fazendo.

Sem transformar o lazer em desempenho. Sem precisar mostrar que aproveitei bem o tempo. Sem fazer daquele momento mais um projeto.

Talvez o prazer também dependa das condições

É fácil concluir que deixamos de gostar de alguma coisa.

Paramos de ler e pensamos que perdemos o interesse pelos livros. Abandonamos um hobby e decidimos que aquela fase terminou. Abrimos um jogo, não sentimos vontade de continuar e concluímos que os videogames já não têm o mesmo efeito.

Às vezes, isso é verdade. Nossos gostos mudam, e não precisamos conservar para sempre tudo aquilo que já nos deu prazer.

Mas também pode acontecer de a atividade continuar importante enquanto as condições ao redor dela deixaram de funcionar.

Talvez o problema não esteja no livro, mas na tentativa de ler quando já estamos exaustos. Talvez não esteja no filme, mas nas interrupções constantes. Talvez não esteja no jogo, mas em tentar transformá-lo em descanso sem sair fisicamente do ambiente de trabalho.

O Nintendo Switch não criou em mim um interesse que nunca existiu. Ele tornou mais acessível uma maneira de jogar que combinava melhor com o que eu precisava naquele momento.

Isso não significa que todo mundo precise de um aparelho novo para recuperar um hobby. A mudança pode estar no lugar, no horário, no ritual ou na redução do esforço necessário para começar. No meu caso, ela veio por meio de um videogame portátil.

Ainda estou entendendo que tipo de jogador sou hoje. Talvez alguns jogos continuem fazendo mais sentido no computador, especialmente aqueles construídos em torno de estratégia, mouse e teclado. Outros parecem ganhar uma vida completamente diferente quando posso levá-los para o sofá e me afastar do espaço de produção.

Pokémon SoulSilver abriu essa porta, mas provavelmente não será o último. Há outros jogos instalados e muitas experiências que ainda quero conhecer. Mais adiante, quero escrever especificamente sobre como foi retornar a essa aventura tantos anos depois — não como uma análise técnica, mas como o relato de um reencontro.

Por enquanto, a descoberta mais importante não está no jogo.

Está em perceber que eu talvez não tivesse perdido a vontade de jogar. Eu apenas não estava encontrando essa vontade nas condições que havia criado para ela.

Às vezes, redescobrir um prazer não exige encontrar algo completamente novo. Basta permitir que uma coisa antiga ocupe um lugar diferente na nossa vida.

Essa descoberta acabou levando a uma pergunta maior sobre a diferença entre construir a vida que quero e a vida que aprendi que deveria querer.

Shades

ESCRITO POR

Shades

Transformo experiências pessoais em reflexões sobre vida adulta, sentimentos, escolhas e recomeços. Escrevo sem respostas prontas, mas sempre procurando alguma direção.