Estou construindo a vida que quero ou a vida que aprendi que deveria querer?
Durante muito tempo, tomei decisões pensando nos resultados que deveria alcançar. Só depois percebi que havia deixado de perguntar como eu me sentia vivendo daquela maneira.
Era uma quarta-feira comum. Eu não havia treinado, tinha dormido bem e, durante um intervalo do trabalho, parei para fazer um lanche. Sentei no sofá e vi o Nintendo Switch ao meu lado.
Eu estava com o videogame havia menos de uma semana, mas alguma coisa naquela cena chamou minha atenção. Não era apenas a empolgação de ter comprado algo novo. Eu não lembrava da última vez que uma atividade havia despertado em mim tanta vontade por vários dias seguidos.
Olhei para o aparelho e pensei no quanto estava gostando de jogar. Não por obrigação, desempenho ou necessidade de transformar aquilo em algo útil. Eu simplesmente queria estar ali.
Então me imaginei no fim de semana. Em vez de viajar, sair para beber, procurar uma boa foto ou tentar demonstrar que minha vida estava acontecendo, eu poderia ficar em casa. Poderia cuidar de mim, treinar, estudar inteligência artificial, trabalhar nos projetos da empresa e jogar um pouco.
E isso me pareceu bom. Não como uma fuga, mas como uma escolha.
Foi naquele momento, olhando para um videogame no sofá, que uma pergunta muito maior apareceu:
Estou construindo a vida que quero ou a vida que aprendi que deveria querer?
Dois anos construindo um futuro
Nos últimos anos, grande parte da minha vida esteve organizada em torno de um único objetivo: o “projeto família”.
Eu estava em um relacionamento e queria que ele desse certo, evoluísse e se transformasse em uma família. Entre todas as mulheres com quem já me relacionei, ela foi a única que despertou em mim esse desejo com tanta força.
Não era apenas uma obrigação social ou uma etapa que eu acreditava precisar cumprir. Eu realmente amava aquela pessoa e queria construir algo com ela. Queria que aquele amor gerasse um futuro e ainda desejo, um dia, viver a experiência de ser pai.
Comprei um apartamento e tomei muitas decisões pensando naquela vida. O problema é que, na tentativa de fazer o projeto dar certo, fui deixando de perceber o que acontecia comigo dentro dele.
Durante quase dois anos, vivi principalmente pela lógica. Eu sabia o que precisava fazer, quais resultados queria alcançar e quais passos pareciam necessários para chegar até eles. Se existia um objetivo, eu tentava encontrar o caminho mais eficiente.
Isso sempre foi natural para mim. Diante de um problema, minha primeira reação é raciocinar. Eu observo, tento entender e procuro uma solução.
Mas sentimentos não obedecem à mesma lógica de um projeto.
Enquanto eu tentava construir um futuro, deixei de perguntar como estava me sentindo no presente. Aos poucos, o relacionamento e o objetivo passaram a ocupar quase todo o espaço. Eu continuava fazendo o que considerava certo, mas já não percebia o preço que estava pagando para sustentar aquela direção.
Na tentativa de construir uma vida a dois, fui desaparecendo da minha própria vida.
O relacionamento terminou. A necessidade de provar alguma coisa, não.
Quando a superação também vira desempenho
Depois do término, eu poderia ter começado a olhar para mim. Em vez disso, durante muitos meses, continuei seguindo uma lógica parecida.
Eu queria provar que estava bem, que havia superado e que minha vida também poderia parecer interessante. Se eu viajasse mais, saísse mais e publicasse mais coisas, talvez os outros percebessem que eu tinha seguido em frente. Talvez aparecessem novas oportunidades de relacionamento. Talvez eu mesmo acreditasse na imagem que estava tentando construir.
Também comecei a sentir pressa.
Eu estava com 37 anos e pensava no tempo que havia “perdido”. Se ainda queria construir uma família e ser pai, precisava correr. Precisava conhecer alguém e retomar o projeto interrompido.
Houve tentativas. Elas não deram certo porque, olhando agora, eu não estava verdadeiramente disponível para conhecer outra pessoa. Eu procurava alguém que pudesse ocupar rapidamente o lugar deixado no futuro que eu havia imaginado.
Não estava começando uma nova história. Estava tentando tapar o espaço vazio de uma história que havia terminado.
A relação durou quase dois anos. Depois dela, passei cerca de oito meses tentando provar que conseguiria viver sem aquilo que havia planejado.
Durante dois anos, tentei construir um futuro. Nos oito meses seguintes, tentei provar que conseguiria viver sem ele. Nos dois períodos, porém, continuei distante de mim.
O corpo começou a responder
Por muito tempo, tratei desconforto como algo que precisava ser vencido.
Isso aparecia de forma muito clara na musculação. Eu mantinha treinos longos e com muito volume. Alimentava-me bem, cuidava da hidratação e dormia relativamente bem, mas meu corpo já não estava conseguindo acompanhar. Uma lesão era seguida por outra, e ainda assim minha tendência era insistir.
Na minha cabeça, eu sabia cumprir um plano. Se aquilo era necessário para chegar a um resultado, o desconforto fazia parte.
Os sinais também apareciam fora da academia.
Quando eu saía, muitas vezes só conseguia permanecer nos lugares se estivesse bebendo. A bebida tornava aqueles ambientes suportáveis por algum tempo, mas também deixava meu emocional mais intenso e, depois, eu me sentia cada vez pior.
Resolvi parar de beber. Quando comecei a frequentar os mesmos lugares sóbrio, passei a notar perguntas que antes ficavam abafadas: por que estou aqui? Eu realmente quero estar neste ambiente? Essas são as pessoas com quem quero dividir meu tempo?
Isso não significa que bares, festas ou aquelas pessoas fossem necessariamente ruins. Também não significa que nunca mais quero sair. O que percebi foi que eu já não estava selecionando os ambientes. Eu apenas seguia o movimento porque aquela parecia ser a maneira correta de demonstrar que estava vivendo e havia superado o término.
Meu corpo vinha dando sinais havia algum tempo. Eu é que tentava responder a todos eles com mais lógica, mais esforço e mais disciplina.
Aprender a sentir
A terapia teve um papel importante nessa mudança.
Foram aproximadamente três meses aprendendo algo que pode parecer óbvio para algumas pessoas, mas não era para mim: perceber o que eu estava sentindo antes de tentar resolver racionalmente a situação.
Eu havia passado cerca de dois anos e oito meses executando aquilo que parecia correto. Só que tomar decisões exclusivamente pela lógica não me tornava mais consciente. Em alguns momentos, apenas me tornava mais eficiente em ignorar a mim mesmo.
Sentir não significa obedecer a toda emoção, abandonar responsabilidades ou fazer apenas aquilo que dá prazer imediato. Sentir é permitir que o corpo e as emoções também participem da leitura da própria vida.
Hoje consigo perceber melhor o desgaste dos meus treinos e readequá-los. Isso não significa que deixei de aceitar o desconforto. Acordar às cinco da manhã para treinar continua sendo difícil, e eu sei que esforço, disciplina e renúncia são necessários para construir muitas das coisas que valorizo.
Mas existe um limite.
Há diferença entre o desconforto que acompanha uma escolha importante e o sofrimento provocado por insistir cegamente em algo que deixou de ser saudável. Há diferença entre desafiar o corpo e silenciar continuamente seus sinais. Há diferença entre disciplina e abandono de si.
Uma vida compatível comigo não será uma vida em que faço apenas o que tenho vontade. Será uma vida em que consigo reconhecer por que escolhi enfrentar determinadas dificuldades — e em que o esforço continua ligado a algo que verdadeiramente valorizo.
O videogame no sofá
Foi por isso que aquela cena simples com o Switch me afetou tanto.
Durante muito tempo, eu também me debati com a ideia de que gostar de videogame poderia ser visto como algo infantil. Eu me preocupava com a imagem de ser um homem adulto que ainda gostava tanto de jogar. Pensava que talvez precisasse me afastar desse interesse para parecer mais maduro ou mais atraente.
Mas, se aquilo estava me fazendo bem, por que eu deveria abandonar?
Comprar o Switch não resolveu minha vida. A novidade também tem seu papel nessa empolgação. Ainda assim, o videogame me ajudou a reconhecer uma sensação que fazia tempo que eu não encontrava com tanta clareza: vontade.
Eu queria jogar. Gostava daquele momento. Sentia prazer em poder sair da frente do computador, sentar no sofá e me envolver com outra coisa sem precisar produzir, impressionar ou justificar o uso do meu tempo.
O Switch não foi apenas uma nova forma de lazer. Ele acabou se tornando um contraste.
De um lado, estavam atividades que eu executava porque pareciam necessárias para provar que estava bem. Do outro, estava uma coisa simples que despertava uma vontade genuína, mesmo sem produzir uma imagem particularmente impressionante para ninguém.
Talvez eu não precisasse viajar todo fim de semana. Talvez não precisasse estar sempre saindo, bebendo, publicando ou procurando alguém. Eu poderia passar um fim de semana cuidando de mim, estudando assuntos que realmente me interessam, desenvolvendo meus projetos e jogando videogame.
Não porque ficar em casa seja superior a sair ou viajar. Mas porque, naquele momento, era uma escolha mais honesta comigo.
Melhorar, não provar
Uma das frases que escolhi colocar neste blog foi: “Concentre-se em melhorar, não em provar.”
Agora começo a entender melhor o que ela significa para mim.
Quando tento melhorar, a referência está na relação que construo comigo e com a vida que desejo viver. Posso observar meus limites, ajustar a direção e reconhecer que um plano deixou de fazer sentido.
Quando tento provar, a referência está sempre fora. Preciso que alguém veja, reconheça, inveje, aprove ou se arrependa. Mesmo quando alcanço o resultado, continuo dependente do olhar que pretendia provocar.
Eu ainda desejo viver um grande amor. Ainda quero, ao menos hoje, construir uma família e passar pela experiência de ser pai. O que não quero é transformar a idade em uma contagem regressiva, colocar alguém apressadamente no espaço deixado por outra pessoa ou desaparecer novamente dentro desse projeto.
Quero sentir de novo a vontade de construir uma família com alguém, mas quero que isso aconteça de maneira recíproca. Quero que a pessoa faça parte de uma vida que já existe, não que seja convocada para preencher uma vaga em um futuro que estou com pressa de executar.
Também continuo querendo treinar, trabalhar, estudar, viajar, sair e desenvolver meus projetos. A mudança não está necessariamente nas atividades. Está no motivo pelo qual as escolho e na atenção que dedico ao que sinto enquanto as vivo.
Talvez amadurecer não seja descobrir uma fórmula para fazer sempre o que queremos. Talvez seja aprender a diferenciar desejo de ansiedade, disciplina de autopunição, construção de validação e desconforto saudável de insistência cega.
Depois de tanto tempo tentando encontrar a decisão logicamente correta, estou começando a fazer uma pergunta diferente.
Não apenas “o que preciso fazer para alcançar determinado resultado?”, mas também “como me sinto vivendo dessa maneira?”.
A resposta nem sempre será confortável. Em alguns momentos, ela poderá exigir esforço. Em outros, poderá exigir que eu abandone um plano, desacelere ou aceite que já não quero aquilo que um dia pareceu indispensável.
Pela primeira vez em muito tempo, não sinto que preciso ter todas as respostas imediatamente.
Estou aprendendo a participar conscientemente da construção da minha vida. Não da vida que parece mais impressionante, da vida que provaria que venci ou daquela que preciso terminar antes que o tempo acabe.
Da minha vida.
Se essa pergunta também apareceu para você, talvez a reflexão sobre como um prazer simples pode revelar aquilo que ainda queremos seja um bom próximo caminho.